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Você desperta e olha em volta, zonza e sonolenta, assustada também quando percebe que estava deitada na grama cinzenta ao lado de um precipício. Do alto, na posição privilegiada que se encontra, você observa que o céu é róseo perto do horizonte em toda a volta, e de tonalidade azul-escuro até o negro como ônix, nos locais onde as nuvens de tempestade, rugindo trovões e lançando raios, não cobrem. Abaixo, dentro de um vale cercado por penhascos de alturas impossíveis, que parecem vivos devido ao bruxuleio das sombras, aninha-se um castelo, não, é mais uma fortaleza de bastiões instransponíveis em cima de um morro e cercado por centenas de muros e centenas de fossos de águas pútridas. Um relâmpago ilumina a escuridão do vale e você tapa sua boca com suas mãos para conter o grito.

Os penhascos não estão vivos, mas as sombras estão. Milhares, talvez milhares de milhares, que escorriam pelas frestas e deslizavam pelas fendas. Você as conhece, viu-as antes no Castelo de Qui Tever. Não eram sombras comuns: esticadas demais, com grandes mãos e pés que terminavam em garras e havia uma aura de malícia e malevolência que os envolvia que, você sabia, poderiam destroçar a mente das pessoas comuns. Sua fortuna era nunca

O chão do vale e mesmo além dele, cobrindo a planície sem-fim, estava apinhado de sombras que se moviam em ondas na direção do castelo-fortaleza, chocando-se com os muros e superando-os pela força dos números, como uma praga de insetos avançando sobre uma plantação. Um contingente de sombras tentava defender os muros, iniciando batalhas renhidas em incontáveis pontos. Aquelas que corriam pelas paredes escarpadas do penhasco saltavam em tal quantidade que pareciam uma cachoeira negra e translúcida: uma torrente de fúria que represa alguma poderia conter.

A cada instante as atacantes se aproximavam do castelo-fortaleza. Da torre de menagem saiu, em revoada, uma corrente contínua de corujas que, tantas eram, parecia unir o céu a terra, alcançado, com seu vôo, a tempestade de rosnava. Os baluartes, antes inexpugnáveis, foram superados. Porém, ali embaixo, uma figura, maior e mais concreta que a miríade de sombras a sua volta, ergueu nas mãos algo que refulgiu e assustou as sombras, afastando-as ao ponto de abrir um espaço naquela multidão.

Você sabe que é importante ver quem é esse indivíduo, entretanto a distância lhe previne de discernir com precisão. Estranhamente, enquanto você foca a sua visão a imagem parece se avizinhar, como se você estivesse voando naquela direção, porém sem sair do lugar. Ao ver quem é a figura coroada por si mesma, um horror gélido toma seu corpo e você não consegue segurar o grito.

A atenção daquele que agora tem a cabeça ornada pela coroa se volta para você. Não na sua direção, mas em você, enxergando-te como se estivesse ao lado dele. Você não ouve o que ele pronuncia quando abre a boca e aponta para sua pessoa, mas a ira na face dele não lhe dá margem para dúvidas sobre as intenções de seu comando.

As sombras uivam e guincham enquanto giram e correm para lhe pegar e despedaçar-te. Você tenta fugir, todavia seus pés afundam na grama, como se estivesse num lodaçal. Suor desce pela sua fronte devido à exaustão causada pelo esforço para escapar e, mesmo assim, as sombras gritam pelo seu sangue e saltam sobre você, que se encolhe chorando.
De olhos fechados você não viu quando um bico amarelo agarrou a sombra mais próxima de você e a partiu ao meio, nem o momento em que a grande asa negra de um melro-preto afastou as outras que estavam mais perto, lançando-as longe. Sentiu, no entanto, quando patas fortes, pegaram você e lhe retiraram do lodaçal. Beogram subiu, batendo vigorosamente as asas e, lá embaixo, berrando blasfêmias e ameaças, estava Hanter, com a cabeça coroada.

Você despertou para a realidade.

URBION – O JOGO

Geral:
Urbion é um jogo solitário (ou para dois jogadores) em que o objetivo é equilibrar, no mundo onírico, os Pesadelos (Incubi – negativo) e os Sonhos (Sognae – positivo), de forma que haja paz na Cidade dos Sonhos. Porém o Caos tentará, constantemente, por tudo a perder, promovendo o desequilíbrio, a dissensão e os conflitos de volta. Como líder da Cidade dos Sonhos é seu objetivo manter os distritos (e os Incubi e os Sognae) em harmonia.
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Ele não sabia onde estava. Era um local vagamente familiar – certamente estivera ali antes, mas onde “ali” era, ele não conseguia dizer. Andando pelo corredor foi possível lembrar que estava na câmara de astronomia. Notou, também, que estava perdido. Os corredores eram todos iguais, somente as portas alteravam em certos detalhes – algumas tinham o símbolo do sol, outras tinham um triângulo e, poucas, tinham chaves em suas fechaduras. As portas estavam todas fechadas, mas não trancadas, e levavam a salas onde haviam astrolábios, cartas cosmológicas, lunetas e outros aparatos científicos. Não havia minúcias em tais registros e equipamentos, todos pareciam como que manchados por água, borrados – a visão parecia ser incapaz de se focar.

Ele estava diante da uma das portas que podia passar, pois descobrira que, uma vez que passasse por uma porta com símbolo de sol, todas as outras com o mesmo símbolo estavam bloqueadas para ele, e foi um longo caminho até encontrar uma que tivesse um sinal diverso. Sentiu uma sensação ruim antes de abrir a porta, contudo, atrás de si, o corredor parecia sumir, existindo somente ao redor dele e, ele supunha, o mesmo desapareceria uma vez que atravessasse a porta. Assim, abriu a porta.

O pesadelo o atacou sem aviso, puxando-o com violência para dentro com mãos que eram somente sombras. Havia formas diversas na massa de escuridão e todas elas pareciam querer feri-lo. Por instinto, ele usou a única coisa que carregava que poderia ser algum tipo de arma: uma chave azul. O resultado foi assustador – as criaturas uivaram e urraram e a sala tremeu enquanto as sombras rodopiavam, girando como um redemoinho que era sugado pela chave. Os pesadelos foram consumidos pela chave que, então, começou a derreter, com o metal virando líquido e escorrendo para o chão, onde deveria haver algumas rachaduras ínfimas, pois o metal azul escoou para logo restar nada.

Ele suspirou de alívio, ainda mais quando pode ver que, do outro lado da sala, parcialmente escondida por entulho, havia uma porta vermelha com o símbolo do sol. Foi até ela e a abriu. Diante de si o corredor alterou sua cor e estrutura: em frente agora reinava o verde, uma flora luxuriosa onde as samambaias, árvores e mato alto dominavam a vista. Uma trilha sinuosa seguia da soleira da porta, entrando naquele mundo verde recheado por milhares de ruídos. À distância, em meio à vegetação, ele via portas azuis, vermelhas, marrons e, mais importante, outras verdes. Mas qual caminho tomar até elas? Haveria outros pesadelos à espreita?

No mundo dos sonhos tão pouco é certo, exceto que é necessário sair dele.

ONIRIM – O JOGO

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